Gutatis Gutandis
Mudando o que tem de ser mudado
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Fantasia e Realidade
Onde realmente termina uma e começa a outra? Excesso de lucidez impede a transformação da realidade? Se formos realmente “realistas”, teremos forças para mudar nossa vida? Será mesmo que “where there is a will, there is a way”? Onde a determinação começa a se tornar teimosia? Como fica o enfrentamento das condições objetivas, já que não escolhemos a cor da nossa pele, nem como fomos educados na infância?
Por outro lado, temos a “profecia auto-realizável”. Algumas pessoas, por exemplo, têm o dom de se fingirem com mais qualidades ou importância do que realmente têm; e com tempo e malícia convencem os outros e são tratadas de acordo. Vítimas de estelionatários e sociopatas sabem o que digo...
Mas e as pessoas normais: podemos também transformar nossos objetivos em profecias auto-realizáveis? Ou devemos ser fatalistas e dizer “o mundo é assim mesmo”? Vale continuar pensando que “um outro mundo é possível, vamos construí-lo”? E se a realidade se recusa a ser transformada, o sonhador está errado em perseverar? Até quando? Onde é o momento de inflexão, de jogar a toalha? E a paixão, esta grande fantasia afetiva, na qual vemos o ser amado sem defeitos ou atenuados? Devemos ser lúcidos e lógicos e com isso perder a capacidade de nos apaixonar? E qual a graça da vida sem paixão? Qual a graça da vida se não formos em busca de nossos sonhos?
Afinal, será que estou fazendo as perguntas certas?
Por outro lado, temos a “profecia auto-realizável”. Algumas pessoas, por exemplo, têm o dom de se fingirem com mais qualidades ou importância do que realmente têm; e com tempo e malícia convencem os outros e são tratadas de acordo. Vítimas de estelionatários e sociopatas sabem o que digo...
Mas e as pessoas normais: podemos também transformar nossos objetivos em profecias auto-realizáveis? Ou devemos ser fatalistas e dizer “o mundo é assim mesmo”? Vale continuar pensando que “um outro mundo é possível, vamos construí-lo”? E se a realidade se recusa a ser transformada, o sonhador está errado em perseverar? Até quando? Onde é o momento de inflexão, de jogar a toalha? E a paixão, esta grande fantasia afetiva, na qual vemos o ser amado sem defeitos ou atenuados? Devemos ser lúcidos e lógicos e com isso perder a capacidade de nos apaixonar? E qual a graça da vida sem paixão? Qual a graça da vida se não formos em busca de nossos sonhos?
Afinal, será que estou fazendo as perguntas certas?
quinta-feira, 31 de março de 2011
Descrição e prescrição
Sou uma pessoa que raramente digo a alguém o que fazer; mal sei cuidar da minha vida, o que dirá da dos outros. Pois já fiz tanta besteira que devo admitir que não sou exemplo para ninguém: tirante o “Não Matarás”, acho que já descumpri todos os Dez Mandamentos. E várias vezes.
Por isso tenho muito claro que falar com naturalidade sobre um determinado comportamento não implica necessariamente em aprová-lo, e muito menos recomendá-lo aos outros. Mas ultimamente noto que muito de meus interlocutores não percebem isto.
Eu acho que eles fazem parte de um grupo cada vez mais maior de pessoas que andam demasiado fechados em si mesmos, e não conseguem reconhecer que se pode vivenciar experiências de outras pessoas e não somente as suas, e que é possível (e desejável) se libertar da teia de suas próprias sensações e crenças, cruzar a ponte entre as subjetividades e entender o ponto de vista de outrem.
Por este desinteresse (ou incapacidade) de sair de si mesmas, elas costumam achar que o que se fala ou se descreve é sempre o fruto de uma experiência pessoal direta e concreta, especialmente quando o jeito de se contar é elaborado. Penso aqui no equívoco recorrente sobre Nelson Rodrigues, considerado por muitos um pervertido por que escrevia muito bem sobre perversões. Afinal, se você consegue descrever isso com tanto detalhe, é porque você deve ser assim, certo? Errado; ele era um reacionário, e mostrava as perversões justamente para condená-las...
Mas o que me motivou esta reflexão foi uma conversa que tive com alguns colegas sobre traição - tema sempre polêmico. Todos ficaram escandalizados quando afirmei que há pessoas capazes de trair seu parceiro e não sentir a menor culpa. O que eles não entenderam foi que eu não chancelava este comportamento, não o achava louvável e muito menos agia assim. Simplesmente constatei um fato de ordem emocional e ponto. Por favor, senhores, descrição não é prescrição.
Por isso tenho muito claro que falar com naturalidade sobre um determinado comportamento não implica necessariamente em aprová-lo, e muito menos recomendá-lo aos outros. Mas ultimamente noto que muito de meus interlocutores não percebem isto.
Eu acho que eles fazem parte de um grupo cada vez mais maior de pessoas que andam demasiado fechados em si mesmos, e não conseguem reconhecer que se pode vivenciar experiências de outras pessoas e não somente as suas, e que é possível (e desejável) se libertar da teia de suas próprias sensações e crenças, cruzar a ponte entre as subjetividades e entender o ponto de vista de outrem.
Por este desinteresse (ou incapacidade) de sair de si mesmas, elas costumam achar que o que se fala ou se descreve é sempre o fruto de uma experiência pessoal direta e concreta, especialmente quando o jeito de se contar é elaborado. Penso aqui no equívoco recorrente sobre Nelson Rodrigues, considerado por muitos um pervertido por que escrevia muito bem sobre perversões. Afinal, se você consegue descrever isso com tanto detalhe, é porque você deve ser assim, certo? Errado; ele era um reacionário, e mostrava as perversões justamente para condená-las...
Mas o que me motivou esta reflexão foi uma conversa que tive com alguns colegas sobre traição - tema sempre polêmico. Todos ficaram escandalizados quando afirmei que há pessoas capazes de trair seu parceiro e não sentir a menor culpa. O que eles não entenderam foi que eu não chancelava este comportamento, não o achava louvável e muito menos agia assim. Simplesmente constatei um fato de ordem emocional e ponto. Por favor, senhores, descrição não é prescrição.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Sexo fácil pode ser bem complicado...
Uma das grandes conquistas da nossa vida contemporânea é a liberdade sexual. E sua consequência imediata, o sexo casual, é considerado uma realidade quotidiana sem maiores questionamentos morais. Também não vejo problema nisso, pois é perfeitamente legítimo e até enriquecedor se deixar levar eventualmente pelo desejo e satisfazê-lo, se não magoa ninguém e é consensual entre dois adultos.
Mas é o tipo de conduta que deve se ter com moderação, e baseio esta minha opinião neste trecho de Fernando Pessoa: “Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento”.
Nesta linha, o sexo pode ser apenas a satisfação de um desejo momentâneo baseado em um instinto, mas também pode ser a mais sublime expressão de entrega e amor que alguém pode oferecer a outra pessoa. Se sexo casual vira “estilo de vida”, seu praticante banaliza a troca e a entrega, pois a repetição do sexo puramente carnal condiciona a ver o outro como apenas um objeto de seu prazer, e não um sujeito com consciência que deve ser respeitado como tal. Em suma, esteriliza-se o afeto e instrumentaliza-se o ser humano. E ao final, transitar continuamente em um mundo de objetos sexuais transforma a própria pessoa em objeto, e ela se torna dura, cínica e com dificuldade de viver um amor verdadeiro.
Não é por outra razão que os profissionais que alugam seus corpos são tão problemáticos, pois sua posição exige que se ofereça a estranhos a mais alta manifestação de afeto que existe. Não é à toa, portanto, que quase todos se drogam muito para poderem lidar com o fato de terem de, sem carinho, expressar entrega, doação e prazer.
Tudo na vida tem seu preço; quem sempre trata os outros como objeto se transforma em um, e o que as mulheres de “vida fácil” cobram pelo uso de seu corpo acaba sendo muito pouco em comparação ao que lhes custa em termos de dureza, aviltamento e desamor.
Mas é o tipo de conduta que deve se ter com moderação, e baseio esta minha opinião neste trecho de Fernando Pessoa: “Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento”.
Nesta linha, o sexo pode ser apenas a satisfação de um desejo momentâneo baseado em um instinto, mas também pode ser a mais sublime expressão de entrega e amor que alguém pode oferecer a outra pessoa. Se sexo casual vira “estilo de vida”, seu praticante banaliza a troca e a entrega, pois a repetição do sexo puramente carnal condiciona a ver o outro como apenas um objeto de seu prazer, e não um sujeito com consciência que deve ser respeitado como tal. Em suma, esteriliza-se o afeto e instrumentaliza-se o ser humano. E ao final, transitar continuamente em um mundo de objetos sexuais transforma a própria pessoa em objeto, e ela se torna dura, cínica e com dificuldade de viver um amor verdadeiro.
Não é por outra razão que os profissionais que alugam seus corpos são tão problemáticos, pois sua posição exige que se ofereça a estranhos a mais alta manifestação de afeto que existe. Não é à toa, portanto, que quase todos se drogam muito para poderem lidar com o fato de terem de, sem carinho, expressar entrega, doação e prazer.
Tudo na vida tem seu preço; quem sempre trata os outros como objeto se transforma em um, e o que as mulheres de “vida fácil” cobram pelo uso de seu corpo acaba sendo muito pouco em comparação ao que lhes custa em termos de dureza, aviltamento e desamor.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
A Vida Perfeita não vale a pena
Sempre achei que quem tem uma vida perfeita na verdade leva uma existência miserável. Isto por que quem busca e consegue ter um emprego perfeito, com marido e filhos perfeitos e morando em uma casa perfeita vive sempre no fio da navalha, no fundo apavorado que um dia a harmonia se estilhace.
Obter a felicidade deste jeito nos faz depender dos outros para nosso próprio bem-estar, e tentaremos controlar tudo e todos ao nosso redor para manter a estabilidade do conquistado, o que demanda um enorme desgaste físico e psicológico.
E mesmo que se consiga, é um equilíbrio instável, como uma bolinha em cima de uma roda: pode até ficar parada por um tempo, mas a tendência sempre é ela cair lá de cima. E quando o mundo perfeito se despedaça, ele se despedaça todo, já que qualquer coisa fora do lugar já destrói a simetria do conjunto.
Por isso, para mim não vale a pena nem tentar ser perfeito, porque o ser humano nunca deixará de ser contraditório e paradoxal, e a vida (complexa como só ela...) é sempre cheia de acasos e surpresas. Por isso, devemos ter a humildade de reconhecer que a perfeição não existe, e o que devemos tentar controlar não é a nossa vida nem a dos outros, mas sim a maneira como encaramos as desditas e as venturas que a sorte nos oferece: as primeiras com serenidade e tolerância, e as segundas com satisfação e alegria.
Obter a felicidade deste jeito nos faz depender dos outros para nosso próprio bem-estar, e tentaremos controlar tudo e todos ao nosso redor para manter a estabilidade do conquistado, o que demanda um enorme desgaste físico e psicológico.
E mesmo que se consiga, é um equilíbrio instável, como uma bolinha em cima de uma roda: pode até ficar parada por um tempo, mas a tendência sempre é ela cair lá de cima. E quando o mundo perfeito se despedaça, ele se despedaça todo, já que qualquer coisa fora do lugar já destrói a simetria do conjunto.
Por isso, para mim não vale a pena nem tentar ser perfeito, porque o ser humano nunca deixará de ser contraditório e paradoxal, e a vida (complexa como só ela...) é sempre cheia de acasos e surpresas. Por isso, devemos ter a humildade de reconhecer que a perfeição não existe, e o que devemos tentar controlar não é a nossa vida nem a dos outros, mas sim a maneira como encaramos as desditas e as venturas que a sorte nos oferece: as primeiras com serenidade e tolerância, e as segundas com satisfação e alegria.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
"Você sabe falar português?"
Confesso que sempre tive meio birra em ter o português como língua materna, pois é idioma europeu periférico, e quase que um espanhol abastardado. E só não perde para, digamos, o sueco ou o holandês em irrelevância cultural porque os lusitanos conseguiram criar um país que hoje conta com quase 200 milhões de habitantes, um certo Brasil.
Mas é minha vez de mostrar a língua para os franceses ledores de Rimbaud e os italianos de Dante quando me refestelo com fluência em Fernando Pessoa e Machado de Assis. Eles só não são aclamados nos círculos literários mundiais justamente por já serem falecidos e terem escrito na tal língua periférica, senão seriam tão reconhecidos quanto um Borges ou um García Marquez. Pessoa e Machado são escritores geniais e incomparáveis a quaisquer outros em línguas européias. O português com seus heteronômios e a agudíssima sensibilidade humana, que avançava na morbidez. E o brasileiro com seu misto de humor e filosofia, e que usava o estilo como quem esgrime, elegante nos seus movimentos precisos e sempre fulminantes.
Sinto-me assim privilegiado em poder compreendê-los em suas matizes e riquezas de significados e estilos, e isto só os luso-falantes podemos nos gabar.
Mas é minha vez de mostrar a língua para os franceses ledores de Rimbaud e os italianos de Dante quando me refestelo com fluência em Fernando Pessoa e Machado de Assis. Eles só não são aclamados nos círculos literários mundiais justamente por já serem falecidos e terem escrito na tal língua periférica, senão seriam tão reconhecidos quanto um Borges ou um García Marquez. Pessoa e Machado são escritores geniais e incomparáveis a quaisquer outros em línguas européias. O português com seus heteronômios e a agudíssima sensibilidade humana, que avançava na morbidez. E o brasileiro com seu misto de humor e filosofia, e que usava o estilo como quem esgrime, elegante nos seus movimentos precisos e sempre fulminantes.
Sinto-me assim privilegiado em poder compreendê-los em suas matizes e riquezas de significados e estilos, e isto só os luso-falantes podemos nos gabar.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Jogos de Azar
Faz pouco tempo uma amiga me disse que eu era uma pessoa de muita sorte. Não havia nem uma semana que eu tinha perdido o emprego e ainda por cima cheio de dívidas, e por isso supus que ela estava de gozação com minha cara desempregada. Perguntei de algum fato concreto que a corroborasse, e ela não soube me responder, argumentando que era somente uma intuição. Também não insisti.
Mas como sempre acontece comigo, alma obsessiva e dada à reflexão, fiquei com aquilo na cabeça, renitente. Até perceber que eu, também intuitivamente, concordava com ela.
Isto porque veio a mim que nos últimos tempos, a cada pancada na cabeça que a vida me dá, eu agradeço e em seguida na minha consciência surge um “que cara de sorte eu sou”. Parece mecanismo de fuga, mas não é isso, já que sempre fui lúcido. E não é por que eu acho que poderia ser pior, e que ao invés de só perder o emprego eu ainda poderia ter sido humilhado, ou que além de ter me decepcionado eu poderia ter sido traído. Então não é complexo de Poliana, tampouco.
Não, não é nada disso. Mas então o que é?
Mais uma vez, divagar sobre o significado das palavras me deu a resposta que buscava. Ontem de tarde, fazendo supermercado, o pensamento me surgiu, límpido: em francês se diz “bonne chance” quando se deseja boa sorte para alguém! Bingo: ter sorte é ter chances; e claro que toda chance é uma oportunidade! Matei: sorte = chance = oportunidade!
Resolvido o substantivo, fui excitado em busca do verbo: compreendi que no meu caso não é “ter”, mas “haver”. Pois não é que eu “tenha” sorte, um acordo tácito que fiz com o universo para ele me ajudar; na verdade “há” hoje algo dentro de mim, uma peculiar faculdade, que me faz encarar as vicissitudes como desafios a vencer e não problemas a sofrer.
E isto torna minha vida imensamente divertida de usufruir, já que adoro colocar para trabalhar os meus recursos intelectuais e emocionais para tirar o melhor das situações ruins nas quais sou metido (ou me meto).
Diz o ditado que “para mal jogador, até a bola atrapalha”. Para mim, que gosto de me acreditar um bom jogador, agora toda bola dividida é chance de gol.
Mas como sempre acontece comigo, alma obsessiva e dada à reflexão, fiquei com aquilo na cabeça, renitente. Até perceber que eu, também intuitivamente, concordava com ela.
Isto porque veio a mim que nos últimos tempos, a cada pancada na cabeça que a vida me dá, eu agradeço e em seguida na minha consciência surge um “que cara de sorte eu sou”. Parece mecanismo de fuga, mas não é isso, já que sempre fui lúcido. E não é por que eu acho que poderia ser pior, e que ao invés de só perder o emprego eu ainda poderia ter sido humilhado, ou que além de ter me decepcionado eu poderia ter sido traído. Então não é complexo de Poliana, tampouco.
Não, não é nada disso. Mas então o que é?
Mais uma vez, divagar sobre o significado das palavras me deu a resposta que buscava. Ontem de tarde, fazendo supermercado, o pensamento me surgiu, límpido: em francês se diz “bonne chance” quando se deseja boa sorte para alguém! Bingo: ter sorte é ter chances; e claro que toda chance é uma oportunidade! Matei: sorte = chance = oportunidade!
Resolvido o substantivo, fui excitado em busca do verbo: compreendi que no meu caso não é “ter”, mas “haver”. Pois não é que eu “tenha” sorte, um acordo tácito que fiz com o universo para ele me ajudar; na verdade “há” hoje algo dentro de mim, uma peculiar faculdade, que me faz encarar as vicissitudes como desafios a vencer e não problemas a sofrer.
E isto torna minha vida imensamente divertida de usufruir, já que adoro colocar para trabalhar os meus recursos intelectuais e emocionais para tirar o melhor das situações ruins nas quais sou metido (ou me meto).
Diz o ditado que “para mal jogador, até a bola atrapalha”. Para mim, que gosto de me acreditar um bom jogador, agora toda bola dividida é chance de gol.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Through the Looking Glass
Sempre achei que as referências culturais e afetivas distorciam a percepção da realidade, e que deveríamos ter um olhar puro e imaculado sobre o que víamos. Por isso, pensava que falsearíamos a realidade quando, por exemplo, a olhássemos através de uma câmera fotográfica.
Agora vejo que a realidade totalmente objetiva é inapreensível, já que inexistente. E ela não existe porque o olhar é filtrado pelos sentimentos que são associados ou despertados pelo que vemos. O olho é sempre engajado, e é melhor que seja pelas lentes da estética e da emoção.
Ter uma multiplicidade de referências estéticas complexas permite ver o mundo com uma riqueza e um refinamento que ele talvez nem possua concretamente. Este olhar educado apreende com mais profundidade as diversas harmonias que existem entre as coisas, muitas aparentemente banais. E se você sempre busca ao seu redor elementos fotografáveis, esta percepção matizada torna o simples ato de “ver o mundo” algo muito prazeroso e estimulante. Olhar o mundo através de uma lente agora já não falseia a realidade, mas a enriquece, elabora, purifica e aperfeiçoa.
A arte consiste em recriar o mundo, e não em imitá-lo. E a fotografia nos induz ao engano com muita facilidade, pois finge documentar a realidade, mas a composição de luz, ângulo, cores e planos na verdade a recria. A fotografia aparenta ser um retrato da realidade quando é técnica e abstração: uma arte que finge ser apenas reprodução.
Agora vejo que a realidade totalmente objetiva é inapreensível, já que inexistente. E ela não existe porque o olhar é filtrado pelos sentimentos que são associados ou despertados pelo que vemos. O olho é sempre engajado, e é melhor que seja pelas lentes da estética e da emoção.
Ter uma multiplicidade de referências estéticas complexas permite ver o mundo com uma riqueza e um refinamento que ele talvez nem possua concretamente. Este olhar educado apreende com mais profundidade as diversas harmonias que existem entre as coisas, muitas aparentemente banais. E se você sempre busca ao seu redor elementos fotografáveis, esta percepção matizada torna o simples ato de “ver o mundo” algo muito prazeroso e estimulante. Olhar o mundo através de uma lente agora já não falseia a realidade, mas a enriquece, elabora, purifica e aperfeiçoa.
A arte consiste em recriar o mundo, e não em imitá-lo. E a fotografia nos induz ao engano com muita facilidade, pois finge documentar a realidade, mas a composição de luz, ângulo, cores e planos na verdade a recria. A fotografia aparenta ser um retrato da realidade quando é técnica e abstração: uma arte que finge ser apenas reprodução.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Ofensa e Olvido
Sempre me acreditei partidário do “I forgive but I don´t forget” nas vezes que fui profundamente ultrajado ou ofendido. Perdôo pois não guardo rancor nem fico com maquinações: mastigo, engulo e digiro o mal feito a mim - e vida que segue. Mas não esqueço, pois se a oportunidade surgir, darei o troco, nem que demore 25 anos. Já me disseram que este é meu jeito de afirmar minha dignidade. Creio que sim.
Não sou de acreditar em coincidências, mas esta semana, na mesma terça-feira, encontrei-me com duas pessoas que me desrespeitaram muito; um no campo profissional, outra no amoroso. Um não dirigi a palavra, e não vou nem me dar ao trabalho de ir cuspir no seu caixão, até porque não gosto de pegar fila; a outra sentei e conversei, pois ela pareceu-me sinceramente arrependida, e zerar contas com alguém arrependido não carece de tanta grandiosidade: é relativamente fácil e deixa todo mundo feliz.
Pessoas diferentes, situações diferentes, uma só constatação: eu havia esquecido completamente o mal que eles me fizeram. Esquecido não no apagado da memória, pois se busco as lembranças, eu as encontro. Digo esquecido mas é na emoção, este vasto depositário de vivências, e o lugar que importa, porque é nele que se estabelecem o recalque, o trauma, a dor. Não falar com um e falar com a outra significaram o mesmo: eu não estou mais disponível para apanhar e sou sujeito dos meus atos e das minhas emoções. Sentir-se sujeito é descobrir-se livre, já que ser objeto de uma maldade nos dá a sensação de impotência e inferioridade (e suponho que o contrário, ser o seu agente, dá as sensações inversas de poder e superioridade; daí talvez o seu apelo para os fracos de espírito).
Aqui tomei consciência de meu erro: “eu perdôo mas não esqueço” não funciona, pois a espera do revide não nos recupera a dignidade. Esta não se conquista com a vingança, mas com o olvido, completo e verdadeiro.
Não sou de acreditar em coincidências, mas esta semana, na mesma terça-feira, encontrei-me com duas pessoas que me desrespeitaram muito; um no campo profissional, outra no amoroso. Um não dirigi a palavra, e não vou nem me dar ao trabalho de ir cuspir no seu caixão, até porque não gosto de pegar fila; a outra sentei e conversei, pois ela pareceu-me sinceramente arrependida, e zerar contas com alguém arrependido não carece de tanta grandiosidade: é relativamente fácil e deixa todo mundo feliz.
Pessoas diferentes, situações diferentes, uma só constatação: eu havia esquecido completamente o mal que eles me fizeram. Esquecido não no apagado da memória, pois se busco as lembranças, eu as encontro. Digo esquecido mas é na emoção, este vasto depositário de vivências, e o lugar que importa, porque é nele que se estabelecem o recalque, o trauma, a dor. Não falar com um e falar com a outra significaram o mesmo: eu não estou mais disponível para apanhar e sou sujeito dos meus atos e das minhas emoções. Sentir-se sujeito é descobrir-se livre, já que ser objeto de uma maldade nos dá a sensação de impotência e inferioridade (e suponho que o contrário, ser o seu agente, dá as sensações inversas de poder e superioridade; daí talvez o seu apelo para os fracos de espírito).
Aqui tomei consciência de meu erro: “eu perdôo mas não esqueço” não funciona, pois a espera do revide não nos recupera a dignidade. Esta não se conquista com a vingança, mas com o olvido, completo e verdadeiro.
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